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terça-feira, 18 de outubro de 2011,
16:54

- Ela acordou cedo demais. Será condenada. Condenada por não fingir. Em um mundo como esse em que vivemos, ela simplesmente faz isso - não engana a si mesma.
- E com razão?
- Todos sempre possuem suas razões. Nunca podemos julgá-las de dignas ou não, afinal.
- Mas o que ela deveria fingir, e não finge?
- Compreender a si mesma.
- E ela compreende?
- Não. E sabe disso. Não finge estar completamente bem com o mundo e todas as coisas profundas da natureza, como a grande maioria de nós. Sabe que não sabe. Não sabe de nada.
- E nós, sabemos?
- Não sabemos de nada.
- Saberemos?
- Talvez. Como vou saber? Também não sei de nada. Tudo o que temos são hipóteses irrelevantes comparadas com as verdades do mundo. Minhas falas são como minúsculas gotas de chuva que caem em um enorme oceano enfurecido.
- Mas sabes que ela será condenada.
- Isso sei. Sei porque eles deixam que eu saiba. Eles vão condená-la. Ela precisa dormir.
- Caso durma, não a condenarão?
- É possível que não. Quando ela dorme, o mundo descansa.




"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece." "Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso." LISPECTOR, Clarice.